{"id":784,"date":"2026-06-26T17:27:38","date_gmt":"2026-06-26T17:27:38","guid":{"rendered":"https:\/\/bandeirainvestimentos.com.br\/blog\/o-que-e-factoring-direito-empresarial\/"},"modified":"2026-09-27T15:13:17","modified_gmt":"2026-09-27T15:13:17","slug":"o-que-e-factoring-direito-empresarial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bandeirainvestimentos.com.br\/blog\/o-que-e-factoring-direito-empresarial\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 factoring direito empresarial"},"content":{"rendered":"<p>Factoring no direito empresarial \u00e9 a opera\u00e7\u00e3o pela qual uma empresa (faturizadora) adquire cr\u00e9ditos de outra empresa (faturizada), pagando \u00e0 vista por valores que s\u00f3 seriam recebidos no futuro \u2014 geralmente duplicatas, cheques, receb\u00edveis de cart\u00e3o e outros direitos credit\u00f3rios oriundos de vendas mercantis ou presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os. Quando algu\u00e9m pergunta o que \u00e9 factoring direito empresarial, est\u00e1, na pr\u00e1tica, querendo entender como esse contrato at\u00edpico se enquadra no ordenamento jur\u00eddico brasileiro, quais seus elementos essenciais e em que ele se diferencia de um empr\u00e9stimo banc\u00e1rio ou de uma simples cess\u00e3o civil de cr\u00e9dito.<\/p>\n<p>Do ponto de vista jur\u00eddico, o factoring se sustenta na cess\u00e3o onerosa de cr\u00e9dito prevista no C\u00f3digo Civil (arts. 286 a 298), combinada com a livre iniciativa e a autonomia da vontade que regem as rela\u00e7\u00f5es empresariais. N\u00e3o \u00e9 opera\u00e7\u00e3o financeira regulada pelo Banco Central, mas sim atividade mercantil de fomento, o que traz consequ\u00eancias relevantes em termos de tributa\u00e7\u00e3o, responsabilidade pela solv\u00eancia do devedor e estrutura contratual.<\/p>\n<p>Nas pr\u00f3ximas se\u00e7\u00f5es, voc\u00ea ver\u00e1 a natureza jur\u00eddica do contrato, suas modalidades (conventional, maturity, trustee), o tratamento dado pela jurisprud\u00eancia do STJ e a fronteira entre factoring e fomento mercantil aplicado \u00e0 compra de cr\u00e9ditos judiciais, como precat\u00f3rios e direitos credit\u00f3rios reconhecidos em senten\u00e7a.<\/p>\n<h2>O que \u00e9 Factoring no Direito Empresarial: Conceito e Defini\u00e7\u00e3o Jur\u00eddica<\/h2>\n<p>No direito empresarial brasileiro, o <strong>factoring<\/strong> \u2014 tamb\u00e9m denominado <em>fomento mercantil<\/em> \u2014 \u00e9 o contrato pelo qual uma empresa (faturizada) transfere a outra (faturizador ou <em>factor<\/em>) cr\u00e9ditos oriundos de suas vendas mercantis ou presta\u00e7\u00f5es de servi\u00e7o, recebendo em troca o pagamento \u00e0 vista desses valores, com des\u00e1gio. Trata-se de opera\u00e7\u00e3o que combina elementos de <a href=\"https:\/\/bandeirainvestimentos.com.br\/blog\/o-que-e-cessao-de-credito\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">cess\u00e3o de cr\u00e9dito<\/a>, presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os de gest\u00e3o de receb\u00edveis e, eventualmente, assun\u00e7\u00e3o de risco de inadimpl\u00eancia, configurando-se como instrumento t\u00edpico de obten\u00e7\u00e3o de liquidez imediata fora do circuito banc\u00e1rio tradicional.<\/p>\n<h3>Defini\u00e7\u00e3o Legal e Natureza Jur\u00eddica do Contrato de Factoring<\/h3>\n<p>N\u00e3o h\u00e1, no Brasil, diploma espec\u00edfico que discipline integralmente o contrato de factoring. A figura \u00e9 tratada como <strong>contrato at\u00edpico, misto, bilateral, oneroso, consensual e comutativo<\/strong>, regido pelos princ\u00edpios gerais dos contratos do C\u00f3digo Civil (arts. 421 e seguintes) e, sobretudo, pelas regras da cess\u00e3o de cr\u00e9dito (arts. 286 a 298 do CC). A doutrina majorit\u00e1ria e a jurisprud\u00eancia do STJ classificam a opera\u00e7\u00e3o como neg\u00f3cio jur\u00eddico empresarial em que a causa econ\u00f4mica \u00e9 a antecipa\u00e7\u00e3o de receb\u00edveis, e n\u00e3o a concess\u00e3o de m\u00fatuo. As refer\u00eancias normativas indiretas mais relevantes s\u00e3o o art. 15, \u00a71\u00ba, III, &#8220;d&#8221;, da Lei n\u00ba 9.249\/1995 (que reconhece a atividade para fins tribut\u00e1rios) e o art. 17 da Lei n\u00ba 9.532\/1997, ambos confirmando o fomento mercantil como atividade comercial.<\/p>\n<h3>Fomento Mercantil: a Base Econ\u00f4mica do Factoring<\/h3>\n<p>A express\u00e3o <em>fomento mercantil<\/em> traduz a ess\u00eancia da opera\u00e7\u00e3o: fomentar, ou seja, fortalecer financeiramente a empresa cedente por meio da convers\u00e3o de cr\u00e9ditos a prazo em recursos imediatos. Diferentemente do empr\u00e9stimo, o faturizador <strong>compra<\/strong> os receb\u00edveis \u2014 n\u00e3o empresta dinheiro. Por isso, sua remunera\u00e7\u00e3o n\u00e3o consiste em juros, mas no <em>fator de compra<\/em> (des\u00e1gio), composto pelo custo de oportunidade do capital, despesas operacionais, expectativa de inadimpl\u00eancia e margem de lucro. Essa distin\u00e7\u00e3o \u00e9 central no direito empresarial porque define o regime jur\u00eddico aplic\u00e1vel: regras civis e comerciais, e n\u00e3o a legisla\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria.<\/p>\n<h2>Como Funciona o Contrato de Factoring na Pr\u00e1tica Empresarial<\/h2>\n<p>O contrato opera por meio de um conjunto integrado de obriga\u00e7\u00f5es que vai muito al\u00e9m da simples compra de t\u00edtulos. O factor presta servi\u00e7os cont\u00ednuos de an\u00e1lise de risco, gest\u00e3o de carteira, cobran\u00e7a e, em algumas modalidades, garantia contra inadimpl\u00eancia. A faturizada, por sua vez, obriga-se a oferecer cr\u00e9ditos que efetivamente existam e que sejam de boa origem (<em>veritas nominis<\/em>).<\/p>\n<h3>Partes Envolvidas: Faturizador (Factor) e Faturizada<\/h3>\n<p>O <strong>faturizador<\/strong> \u00e9 a sociedade de fomento mercantil, geralmente constitu\u00edda como sociedade empres\u00e1ria limitada ou an\u00f4nima, com objeto social espec\u00edfico de aquisi\u00e7\u00e3o de direitos credit\u00f3rios. A <strong>faturizada<\/strong> \u00e9 a empresa cedente, titular origin\u00e1ria dos cr\u00e9ditos. H\u00e1, ainda, a figura do <strong>devedor cedido<\/strong> (sacado), que n\u00e3o integra o contrato, mas \u00e9 o obrigado original pelo pagamento do t\u00edtulo. A notifica\u00e7\u00e3o do devedor \u00e9 etapa essencial para a oponibilidade da cess\u00e3o \u2014 tema desenvolvido em nosso conte\u00fado sobre <a href=\"https:\/\/bandeirainvestimentos.com.br\/blog\/o-que-e-notificacao-de-cessao-de-credito\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">notifica\u00e7\u00e3o de cess\u00e3o de cr\u00e9dito<\/a>.<\/p>\n<h3>Cess\u00e3o de Cr\u00e9ditos e Aquisi\u00e7\u00e3o de Receb\u00edveis: Mecanismo Operacional<\/h3>\n<p>A transmiss\u00e3o dos cr\u00e9ditos ocorre pelo instituto da cess\u00e3o de cr\u00e9dito, regulada pelos arts. 286 e seguintes do C\u00f3digo Civil. O faturizador adquire a titularidade dos receb\u00edveis, assumindo a posi\u00e7\u00e3o jur\u00eddica de credor perante o devedor cedido. A opera\u00e7\u00e3o se aperfei\u00e7oa em tr\u00eas etapas: (i) celebra\u00e7\u00e3o do contrato-m\u00e3e de fomento mercantil, que estabelece as condi\u00e7\u00f5es gerais; (ii) endosso ou cess\u00e3o pontual dos t\u00edtulos selecionados, com pagamento do valor l\u00edquido; e (iii) notifica\u00e7\u00e3o ou ci\u00eancia do devedor. A documenta\u00e7\u00e3o t\u00edpica inclui border\u00f4, <a href=\"https:\/\/bandeirainvestimentos.com.br\/blog\/o-que-e-carta-de-cessao-de-credito\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">instrumento de cess\u00e3o<\/a> e, quando aplic\u00e1vel, endosso translativo dos t\u00edtulos cambiais.<\/p>\n<h3>Modalidades de Factoring: Convencional, Maturity, Trustee e Com Recurso<\/h3>\n<p>A doutrina e a pr\u00e1tica mercantil reconhecem diversas modalidades:<\/p>\n<ul>\n<li><strong>Factoring convencional (conventional factoring):<\/strong> o factor adquire o cr\u00e9dito e antecipa o valor \u00e0 faturizada, assumindo o risco da inadimpl\u00eancia do devedor.<\/li>\n<li><strong>Maturity factoring:<\/strong> o pagamento \u00e0 faturizada ocorre no vencimento dos t\u00edtulos; o factor presta servi\u00e7os de gest\u00e3o, cobran\u00e7a e garantia, mas n\u00e3o antecipa recursos.<\/li>\n<li><strong>Trustee:<\/strong> modalidade ampliada em que o factor administra integralmente a carteira de receb\u00edveis, contas a pagar e fluxo de caixa da faturizada.<\/li>\n<li><strong>Factoring com recurso (cl\u00e1usula <em>pro solvendo<\/em>):<\/strong> modalidade controvertida em que se tenta atribuir \u00e0 faturizada a responsabilidade pelo inadimplemento \u2014 figura, como veremos, recha\u00e7ada pelo STJ por desnaturar o contrato.<\/li>\n<\/ul>\n<h2>Diferen\u00e7as entre Factoring e Contrato Banc\u00e1rio (Desconto Banc\u00e1rio)<\/h2>\n<p>Embora factoring e desconto banc\u00e1rio possam parecer economicamente pr\u00f3ximos, s\u00e3o institutos juridicamente distintos. No <strong>desconto banc\u00e1rio<\/strong>, h\u00e1 concess\u00e3o de cr\u00e9dito (m\u00fatuo) com a entrega de t\u00edtulos em garantia ou em endosso; o banco mant\u00e9m direito de regresso contra o cliente em caso de inadimplemento. J\u00e1 no <strong>fomento mercantil<\/strong>, h\u00e1 compra definitiva do cr\u00e9dito, e o risco da insolv\u00eancia do devedor, em regra, recai sobre o factor.<\/p>\n<h3>Por que o Factoring N\u00e3o \u00e9 Atividade Privativa de Institui\u00e7\u00e3o Financeira<\/h3>\n<p>A jurisprud\u00eancia consolidada \u2014 inclusive do STJ (REsp 119.705\/RS e julgados subsequentes) \u2014 firma que o factoring <strong>n\u00e3o constitui atividade financeira<\/strong> nos termos do art. 17 da Lei n\u00ba 4.595\/1964, pois n\u00e3o h\u00e1 capta\u00e7\u00e3o, intermedia\u00e7\u00e3o ou aplica\u00e7\u00e3o de recursos financeiros de terceiros. As sociedades de fomento mercantil operam com capital pr\u00f3prio, comprando cr\u00e9ditos. Por isso, dispensam autoriza\u00e7\u00e3o do Banco Central e n\u00e3o se submetem \u00e0 fiscaliza\u00e7\u00e3o do Sistema Financeiro Nacional, sujeitando-se apenas ao registro empresarial comum e \u00e0s regras tribut\u00e1rias e de preven\u00e7\u00e3o \u00e0 lavagem de dinheiro (notadamente as instru\u00e7\u00f5es do COAF).<\/p>\n<h3>Factoring e a Quest\u00e3o dos Juros: Limites e Aplica\u00e7\u00e3o do C\u00f3digo Civil<\/h3>\n<p>Como o fomento mercantil n\u00e3o constitui opera\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria, <strong>n\u00e3o se aplica a S\u00famula 596 do STF<\/strong> (que afasta a limita\u00e7\u00e3o de juros para institui\u00e7\u00f5es financeiras). A consequ\u00eancia pr\u00e1tica \u00e9 que, em eventuais cl\u00e1usulas de mora ou previs\u00e3o de juros remunerat\u00f3rios, incide o limite do art. 591 c\/c art. 406 do C\u00f3digo Civil. Importa, por\u00e9m, distinguir: o <strong>des\u00e1gio<\/strong> (fator de compra) n\u00e3o constitui juros \u2014 \u00e9 pre\u00e7o da aquisi\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito e, portanto, n\u00e3o se submete a qualquer teto, desde que livremente pactuado e n\u00e3o revele abusividade ou simula\u00e7\u00e3o de m\u00fatuo disfar\u00e7ado.<\/p>\n<h2>Factoring e Rela\u00e7\u00e3o de Consumo: Aplica-se o C\u00f3digo de Defesa do Consumidor?<\/h2>\n<p>A qualifica\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre faturizador e faturizada \u00e9 tema sens\u00edvel porque define o regime de prote\u00e7\u00e3o contratual, \u00f4nus probat\u00f3rio e foro competente.<\/p>\n<h3>Posi\u00e7\u00e3o do STJ e do TJDFT: Factoring n\u00e3o Configura Rela\u00e7\u00e3o de Consumo<\/h3>\n<p>O Superior Tribunal de Justi\u00e7a firmou entendimento de que <strong>n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o de consumo<\/strong> entre a empresa de fomento mercantil e a faturizada, pois ambas s\u00e3o empresas que utilizam a opera\u00e7\u00e3o como insumo de sua atividade produtiva (teoria finalista). A faturizada n\u00e3o \u00e9 destinat\u00e1ria final do servi\u00e7o \u2014 emprega o capital obtido na continuidade de seu giro empresarial. Esse posicionamento foi reiterado em diversos julgados (entre eles, REsp 938.979\/DF) e acompanhado pelo TJDFT e pelas demais cortes estaduais. Assim, eventuais lit\u00edgios s\u00e3o regidos pelo C\u00f3digo Civil e pela legisla\u00e7\u00e3o empresarial, e n\u00e3o pelo CDC.<\/p>\n<h2>Responsabilidade da Faturizada pela Solv\u00eancia dos Cr\u00e9ditos Cedidos<\/h2>\n<p>Este \u00e9, possivelmente, o ponto mais explorado em provas e o mais litigado na pr\u00e1tica contratual. A correta compreens\u00e3o exige distinguir entre <em>veritas<\/em> (exist\u00eancia e legitimidade do cr\u00e9dito) e <em>bonitas nominis<\/em> (solv\u00eancia do devedor).<\/p>\n<h3>Regra Geral: a Faturizada n\u00e3o Responde pelo Inadimplemento do Devedor<\/h3>\n<p>No factoring convencional, a faturizada responde apenas pela <strong>exist\u00eancia<\/strong> do cr\u00e9dito cedido (art. 295 do CC) \u2014 ou seja, garante que o cr\u00e9dito existe, \u00e9 v\u00e1lido e est\u00e1 livre de v\u00edcios. <strong>N\u00e3o responde, contudo, pela solv\u00eancia<\/strong> do devedor cedido, pois o risco de cr\u00e9dito \u00e9 elemento essencial do neg\u00f3cio assumido pelo factor. Essa \u00e9 justamente a contrapresta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do des\u00e1gio: o factor cobra mais caro porque assume o risco da inadimpl\u00eancia. O entendimento est\u00e1 consolidado em precedentes como o REsp 992.421\/RS e o REsp 1.289.995\/PE.<\/p>\n<h3>Nulidade da Cl\u00e1usula de Responsabilidade pela Solv\u00eancia e de T\u00edtulos Emitidos para Garanti-la<\/h3>\n<p>A jurisprud\u00eancia do STJ \u00e9 firme no sentido de que <strong>\u00e9 nula a cl\u00e1usula que atribui \u00e0 faturizada responsabilidade pelo inadimplemento do devedor cedido<\/strong>, assim como s\u00e3o nulos os t\u00edtulos de cr\u00e9dito (notas promiss\u00f3rias, cheques) emitidos pela faturizada em favor do factor com a finalidade de garantir a solv\u00eancia. Tais pr\u00e1ticas desvirtuam a opera\u00e7\u00e3o, transformando-a em m\u00fatuo disfar\u00e7ado, e violam a causa contratual. A consequ\u00eancia pr\u00e1tica \u00e9 a inexigibilidade desses t\u00edtulos e, em algumas hip\u00f3teses, a requalifica\u00e7\u00e3o do contrato como opera\u00e7\u00e3o financeira irregular.<\/p>\n<h2>Factoring e Recupera\u00e7\u00e3o Judicial: Empresas em Recupera\u00e7\u00e3o Podem Celebrar Contratos?<\/h2>\n<p>A interface entre fomento mercantil e Lei n\u00ba 11.101\/2005 ganhou relev\u00e2ncia pr\u00e1tica significativa, sobretudo porque empresas em dificuldades financeiras frequentemente recorrem a essa modalidade como alternativa de liquidez.<\/p>\n<h3>Entendimento do STJ sobre Factoring em Empresas sob Recupera\u00e7\u00e3o Judicial<\/h3>\n<p>O STJ admite que <strong>empresas em recupera\u00e7\u00e3o judicial podem celebrar contratos de factoring<\/strong>, desde que a opera\u00e7\u00e3o respeite os princ\u00edpios da preserva\u00e7\u00e3o da atividade empresarial e n\u00e3o configure fraude contra credores ou aliena\u00e7\u00e3o irregular de ativos do plano. A cess\u00e3o de receb\u00edveis no curso da recupera\u00e7\u00e3o \u00e9 instrumento leg\u00edtimo de obten\u00e7\u00e3o de capital de giro e, em regra, dispensa autoriza\u00e7\u00e3o judicial espec\u00edfica, salvo se houver previs\u00e3o restritiva no plano aprovado. Vale lembrar que o tratamento cont\u00e1bil dessas opera\u00e7\u00f5es tem particularidades \u2014 tema que detalhamos em <a href=\"https:\/\/bandeirainvestimentos.com.br\/blog\/como-contabilizar-cessao-de-credito\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">como contabilizar cess\u00e3o de cr\u00e9dito<\/a>.<\/p>\n<h2>Aspectos Relevantes do Contrato de Factoring na Jurisprud\u00eancia do STJ<\/h2>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o jurisprudencial \u00e9 a principal fonte normativa do fomento mercantil no Brasil, justamente pela aus\u00eancia de lei espec\u00edfica. Conhecer os principais precedentes torna-se essencial para a pr\u00e1tica empresarial e para a reda\u00e7\u00e3o contratual.<\/p>\n<h3>Principais Precedentes e S\u00famulas Aplic\u00e1veis ao Factoring<\/h3>\n<ul>\n<li><strong>REsp 119.705\/RS:<\/strong> firmou que factoring n\u00e3o \u00e9 atividade financeira, dispensando autoriza\u00e7\u00e3o do BACEN.<\/li>\n<li><strong>REsp 992.421\/RS e REsp 1.289.995\/PE:<\/strong> consolidaram a nulidade da responsabiliza\u00e7\u00e3o da faturizada pela solv\u00eancia do devedor.<\/li>\n<li><strong>REsp 938.979\/DF:<\/strong> afastou a aplica\u00e7\u00e3o do CDC \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre factor e faturizada.<\/li>\n<li><strong>S\u00famula 425 do STJ:<\/strong> embora trate de reten\u00e7\u00e3o indevida de sal\u00e1rio, \u00e9 frequentemente invocada por analogia em discuss\u00f5es sobre abusividade contratual.<\/li>\n<li><strong>S\u00famula 30 do STJ:<\/strong> aplic\u00e1vel quando se discute capitaliza\u00e7\u00e3o e descaracteriza\u00e7\u00e3o do factoring em m\u00fatuo.<\/li>\n<\/ul>\n<h3>Estrutura e Qualifica\u00e7\u00e3o do Contrato de Factoring segundo a Doutrina<\/h3>\n<p>A doutrina nacional (F\u00e1bio Ulhoa Coelho, Arnoldo Wald, Fran Martins, Luiz Lemos Leite) qualifica o factoring como <strong>contrato empresarial misto<\/strong>, que agrega cess\u00e3o de cr\u00e9dito, presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os e eventual garantia. Essa caracteriza\u00e7\u00e3o tem consequ\u00eancias pr\u00e1ticas: incid\u00eancia de ISS sobre os servi\u00e7os, IRPJ e CSLL sobre o resultado, e impossibilidade de cobran\u00e7a de IOF nas opera\u00e7\u00f5es de compra de cr\u00e9ditos (que n\u00e3o configuram empr\u00e9stimo).<\/p>\n<h2>Factoring em Provas de Concursos P\u00fablicos: Pontos mais Cobrados<\/h2>\n<p>O tema \u00e9 recorrente em provas de Direito Empresarial para magistratura, Minist\u00e9rio P\u00fablico, advocacia p\u00fablica e exames da OAB, justamente por reunir cess\u00e3o de cr\u00e9dito, contratos at\u00edpicos e jurisprud\u00eancia consolidada.<\/p>\n<h3>Quest\u00f5es Recorrentes sobre Factoring em Direito Empresarial<\/h3>\n<ol>\n<li>Natureza jur\u00eddica (contrato at\u00edpico, misto, empresarial \u2014 n\u00e3o banc\u00e1rio).<\/li>\n<li>Inaplicabilidade do CDC.<\/li>\n<li>Responsabilidade da faturizada apenas pela exist\u00eancia do cr\u00e9dito, n\u00e3o pela solv\u00eancia.<\/li>\n<li>Nulidade de cl\u00e1usula de garantia de solv\u00eancia e de t\u00edtulos emitidos para esse fim.<\/li>\n<li>Distin\u00e7\u00e3o entre des\u00e1gio e juros.<\/li>\n<li>Desnecessidade de autoriza\u00e7\u00e3o do BACEN.<\/li>\n<li>Diferen\u00e7a entre factoring e desconto banc\u00e1rio.<\/li>\n<li>Possibilidade de celebra\u00e7\u00e3o por empresas em recupera\u00e7\u00e3o judicial.<\/li>\n<\/ol>\n<h2>FAQ: O contrato de factoring \u00e9 regulado por lei espec\u00edfica no Brasil?<\/h2>\n<p>N\u00e3o. Trata-se de contrato at\u00edpico, sem regulamenta\u00e7\u00e3o legal pr\u00f3pria integral. Rege-se pelos princ\u00edpios gerais dos contratos do C\u00f3digo Civil, pelas regras da cess\u00e3o de cr\u00e9dito (arts. 286-298) e por dispositivos esparsos, como o art. 15, \u00a71\u00ba, III, &#8220;d&#8221;, da Lei n\u00ba 9.249\/1995 e o art. 17 da Lei n\u00ba 9.532\/1997, que o reconhecem para fins tribut\u00e1rios. A constru\u00e7\u00e3o normativa \u00e9 majoritariamente jurisprudencial, com forte protagonismo do STJ.<\/p>\n<h2>FAQ: Qual a diferen\u00e7a entre factoring e cess\u00e3o de cr\u00e9dito comum?<\/h2>\n<p>O factoring <strong>utiliza<\/strong> a cess\u00e3o de cr\u00e9dito como mecanismo de transmiss\u00e3o, mas vai al\u00e9m. Enquanto a cess\u00e3o civil \u00e9 neg\u00f3cio jur\u00eddico isolado de transfer\u00eancia de cr\u00e9dito, o fomento mercantil agrega presta\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de servi\u00e7os (an\u00e1lise de risco, gest\u00e3o, cobran\u00e7a) e estrutura empresarial profissionalizada. Al\u00e9m disso, no factoring o factor assume o risco da inadimpl\u00eancia; na <a href=\"https:\/\/bandeirainvestimentos.com.br\/blog\/o-que-e-cessao-civil-de-credito\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">cess\u00e3o civil de cr\u00e9dito<\/a> comum, o cedente responde apenas pela exist\u00eancia do cr\u00e9dito, salvo se assumir expressamente a solv\u00eancia (art. 296 do CC).<\/p>\n<h2>FAQ: A empresa de factoring pode cobrar juros acima do limite legal?<\/h2>\n<p>O des\u00e1gio (fator de compra) <strong>n\u00e3o se confunde com juros<\/strong> \u2014 \u00e9 pre\u00e7o da aquisi\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito e n\u00e3o se submete a teto legal, desde que pactuado de boa-f\u00e9 e sem simula\u00e7\u00e3o. J\u00e1 eventuais juros morat\u00f3rios ou remunerat\u00f3rios cobrados em cl\u00e1usulas acess\u00f3rias submetem-se ao limite do art. 406 do C\u00f3digo Civil (atualmente vinculado \u00e0 taxa Selic, conforme entendimento do STJ), pois as empresas de fomento mercantil n\u00e3o s\u00e3o institui\u00e7\u00f5es financeiras e, portanto, n\u00e3o se beneficiam da S\u00famula 596 do STF.<\/p>\n<h2>FAQ: O devedor cedido pode opor exce\u00e7\u00f5es pessoais contra a empresa de factoring?<\/h2>\n<p>Sim, em parte. O devedor cedido pode opor ao factor as exce\u00e7\u00f5es que tinha contra a faturizada at\u00e9 o momento em que tomou conhecimento da cess\u00e3o (art. 294 do CC), incluindo compensa\u00e7\u00e3o, pagamento e v\u00edcios do neg\u00f3cio origin\u00e1rio. Ap\u00f3s a notifica\u00e7\u00e3o v\u00e1lida, as exce\u00e7\u00f5es limitam-se \u00e0s que digam respeito ao pr\u00f3prio cr\u00e9dito cedido. Por isso, a notifica\u00e7\u00e3o formal torna-se etapa cr\u00edtica e deve ser realizada com rigor documental.<\/p>\n<h2>FAQ: Factoring \u00e9 considerado atividade financeira sujeita \u00e0 fiscaliza\u00e7\u00e3o do Banco Central?<\/h2>\n<p>N\u00e3o. O STJ firmou que o fomento mercantil n\u00e3o constitui atividade financeira nos termos da Lei n\u00ba 4.595\/1964, pois n\u00e3o envolve capta\u00e7\u00e3o, intermedia\u00e7\u00e3o ou aplica\u00e7\u00e3o de recursos de terceiros. As sociedades operam com capital pr\u00f3prio e dispensam autoriza\u00e7\u00e3o do Banco Central. Submetem-se, por\u00e9m, \u00e0s obriga\u00e7\u00f5es de preven\u00e7\u00e3o \u00e0 lavagem de dinheiro perante o COAF (Lei n\u00ba 9.613\/1998) e ao registro empresarial comum nas juntas comerciais.<\/p>\n<h2>FAQ: Qual \u00e9 o risco assumido pelo faturizador no contrato de factoring?<\/h2>\n<p>O faturizador assume o <strong>risco de cr\u00e9dito<\/strong> \u2014 ou seja, o risco de o devedor cedido n\u00e3o pagar o t\u00edtulo no vencimento. Esse \u00e9 o risco econ\u00f4mico essencial que justifica o des\u00e1gio cobrado. A faturizada responde apenas pela exist\u00eancia e regularidade do cr\u00e9dito (<em>veritas nominis<\/em>), n\u00e3o pela solv\u00eancia (<em>bonitas nominis<\/em>). Qualquer cl\u00e1usula em sentido contr\u00e1rio \u00e9 considerada nula pelo STJ, por desvirtuar a causa contratual e transformar o factoring em m\u00fatuo disfar\u00e7ado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Descubra o que \u00e9 factoring no direito empresarial, como funciona essa opera\u00e7\u00e3o de cess\u00e3o de cr\u00e9dito e suas diferen\u00e7as legais e pr\u00e1ticas.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":1936,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-784","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O que \u00e9 factoring direito empresarial - Bandeira Investimentos Blog<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/bandeirainvestimentos.com.br\/blog\/o-que-e-factoring-direito-empresarial\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"O que \u00e9 factoring direito empresarial - 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Formado em Direito pela PUC do Rio Grande do Sul, conduz a an\u00e1lise econ\u00f4mica dos cr\u00e9ditos e a estrutura\u00e7\u00e3o comercial das opera\u00e7\u00f5es de cess\u00e3o. \u00c9 coautor do livro Precat\u00f3rio Al\u00e9m do Processo: Direito, Mercado e Estrat\u00e9gia na Advocacia de Precat\u00f3rios (Lumen Juris, lan\u00e7amento previsto para dezembro de 2026) e participou da audi\u00eancia p\u00fablica do CNJ sobre a regulamenta\u00e7\u00e3o nacional da cess\u00e3o de precat\u00f3rios, em setembro de 2026.","sameAs":["https:\/\/www.bandeirainvestimentos.com.br\/quem-somos","https:\/\/www.instagram.com\/bandeirainvestimentos\/"],"url":"https:\/\/bandeirainvestimentos.com.br\/blog\/author\/joao-bandeira\/"}]}},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/bandeirainvestimentos.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/784","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/bandeirainvestimentos.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/bandeirainvestimentos.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bandeirainvestimentos.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bandeirainvestimentos.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=784"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/bandeirainvestimentos.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/784\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1127,"href":"https:\/\/bandeirainvestimentos.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/784\/revisions\/1127"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bandeirainvestimentos.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1936"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/bandeirainvestimentos.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=784"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/bandeirainvestimentos.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=784"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/bandeirainvestimentos.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=784"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}